Sumário
- Introdução
- O Exorcista (1973)
- O Iluminado (1980)
- Hereditário (2018)
- O Babadook (2014)
- Corra! (2017)
- Considerações Finais
- FAQ – Perguntas Frequentes
Introdução
O cinema de terror, desde seu início, tem como principal objetivo evocar algumas das emoções mais primitivas do ser humano: medo, ansiedade, pavor e, em alguns casos, repulsa. Entretanto, filmes de terror de qualidade transcendem o simples susto momentâneo e oferecem experiências cinematográficas que permanecem na mente do espectador muito depois dos créditos finais. Os melhores exemplos do gênero utilizam o medo como veículo para explorar questões sociais, psicológicas e filosóficas mais profundas.
O gênero de terror tem evoluído significativamente ao longo das décadas. Dos clássicos expressionistas alemães como “Nosferatu” (1922) aos slashers dos anos 80, passando pelo J-Horror japonês dos anos 90 e chegando ao chamado “terror elevado” (elevated horror) da atualidade, o cinema de terror sempre refletiu os medos coletivos de cada época.
Neste artigo abrangente, exploraremos cinco filmes de terror absolutamente imperdíveis que todo entusiasta do gênero — e mesmo aqueles que desejam se aventurar por suas sombrias paisagens pela primeira vez — deve assistir. Cada um desses filmes representa não apenas um marco no gênero do terror, mas também uma experiência cinematográfica singular que permanece relevante independentemente da época em que foi produzido.
Nossa seleção abrange diferentes décadas e estilos, desde clássicos atemporais até obras-primas contemporâneas, proporcionando uma visão ampla do potencial artístico e emocional que o cinema de terror pode oferecer. Para cada filme, apresentaremos uma análise detalhada, contexto histórico, curiosidades de produção e, principalmente, uma argumentação sólida sobre por que essa obra em particular merece seu tempo e atenção.
Prepare-se para uma jornada pelos cantos mais sombrios da psique humana, onde o sobrenatural se encontra com traumas reais, onde monstros metafóricos ganham vida e onde o verdadeiro horror muitas vezes reside não no que é mostrado, mas no que é sugerido. Estes são filmes que não apenas assustam, mas também fazem pensar, provocam, desafiam e, em última análise, enriquecem nossa compreensão do cinema como arte.
O Exorcista (1973)
Sinopse
Dirigido por William Friedkin e baseado no romance homônimo de William Peter Blatty, “O Exorcista” conta a história de Regan MacNeil (Linda Blair), uma menina de 12 anos que começa a apresentar comportamentos estranhos e perturbadores após brincar com um tabuleiro Ouija. Sua mãe, a atriz Chris MacNeil (Ellen Burstyn), após esgotar todas as possibilidades médicas convencionais e testemunhar fenômenos inexplicáveis envolvendo sua filha, recorre à Igreja Católica. O padre Damien Karras (Jason Miller), um jesuíta com formação em psiquiatria que passa por uma crise de fé, e o padre Lankester Merrin (Max von Sydow), um arqueólogo e exorcista experiente, unem forças para enfrentar o demônio Pazuzu que tomou posse do corpo da jovem.
Contexto Histórico e Impacto Cultural
Lançado em dezembro de 1973, “O Exorcista” surgiu em um momento de transição cultural nos Estados Unidos. O país ainda sofria com as repercussões da Guerra do Vietnã e experimentava uma crescente desconfiança nas instituições tradicionais, incluindo a religião. O filme capturou perfeitamente essa ansiedade coletiva, apresentando uma narrativa onde a ciência moderna se mostra impotente diante de forças sobrenaturais ancestrais.
O impacto cultural do filme foi imenso e imediato. Relatos de espectadores desmaiando, vomitando ou saindo das salas de cinema antes do término da projeção eram comuns. Algumas localidades chegaram a proibir menores de 18 anos de assistirem ao filme, mesmo acompanhados dos pais. Igrejas protestantes condenaram a obra, enquanto muitos católicos viram nela uma reafirmação da existência do mal como entidade concreta.
“O Exorcista” foi o primeiro filme de terror a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme, quebrando o estigma do gênero como mero entretenimento sem valor artístico. Ao todo, o filme recebeu dez indicações ao Oscar e venceu duas estatuetas: Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Som.
Aspectos Técnicos e Estilísticos
Friedkin, que vinha do documentário antes de migrar para a ficção, empregou técnicas de filmagem que conferiam um aspecto quase documental a “O Exorcista”. A fotografia de Owen Roizman privilegia uma iluminação natural em grande parte do filme, criando um contraste dramático com as cenas sobrenaturais no quarto de Regan.
A utilização de efeitos práticos, sem recursos digitais (inexistentes na época), contribui para a autenticidade perturbadora das cenas de possessão. O trabalho de maquiagem de Dick Smith permanece impressionante mesmo pelos padrões atuais. A icônica cena da cabeça girando 360 graus foi realizada com uma réplica em tamanho real da atriz, enquanto os vômitos eram produzidos por um sistema de tubos escondidos no figurino.
A trilha sonora, que inclui o famoso tema “Tubular Bells” de Mike Oldfield, é minimalista e evita os clichês musicais do terror, optando por criar atmosfera através de sons ambientes e dissonâncias sutis que aumentam a tensão sem alertar explicitamente o espectador sobre os momentos de susto.
Temas e Simbolismos
Sob a superfície de sua narrativa de possessão demoníaca, “O Exorcista” explora temas profundamente humanos: a relação entre fé e dúvida, o medo parental de não conseguir proteger os filhos, o confronto entre ciência e religião, e a natureza do mal em um mundo aparentemente abandonado por Deus.
O personagem do padre Karras representa essa dualidade: como psiquiatra, busca explicações racionais para os eventos; como sacerdote em crise de fé, precisa reconciliar-se com suas crenças para enfrentar o mal sobrenatural. Sua jornada espiritual culmina em um ato de autossacrifício que ecoa simbolicamente o sacrifício de Cristo.
A inocência corrompida, representada por Regan, funciona como metáfora para ansiedades sociais sobre a perda da pureza infantil em uma sociedade em rápida transformação. Não por acaso, muitos dos atos mais chocantes da Regan possuída envolvem linguagem obscena, sexualidade explícita e profanação de símbolos religiosos — todos tabus relacionados à infância.
Por Que Você Deve Assistir
“O Exorcista” transcende o gênero de terror por várias razões. Em primeiro lugar, sua qualidade técnica e artística é indiscutível, com atuações extraordinárias de todo o elenco e uma direção precisa que sabe quando mostrar e quando apenas sugerir.
Mas o verdadeiro poder do filme reside em sua capacidade de aterrorizar em múltiplos níveis. Há o horror visceral das cenas de possessão, certamente, mas há também um terror existencial mais profundo ligado às questões de fé, mortalidade e o aparente silêncio divino diante do sofrimento humano.
Cinquenta anos após seu lançamento, “O Exorcista” permanece perturbador porque, além dos demônios literais, ele confronta os demônios metafóricos que todos carregamos: dúvida, culpa, medo da perda e o terror de que nossos entes queridos possam se transformar em algo irreconhecível.
Para além do entretenimento, o filme funciona como uma poderosa alegoria sobre a condição humana em um mundo moderno onde as velhas certezas — religiosas, científicas, familiares — parecem cada vez mais frágeis diante de forças que não compreendemos completamente.
Se você ainda não assistiu a esta obra-prima do cinema, prepare-se para uma experiência que vai muito além dos sustos momentâneos. “O Exorcista” é um filme que permanece na memória e continua provocando reflexões muito tempo depois que as luzes se acendem.
O Iluminado (1980)
Sinopse
Baseado no romance homônimo de Stephen King e dirigido pelo meticuloso Stanley Kubrick, “O Iluminado” acompanha Jack Torrance (Jack Nicholson), um escritor e ex-professor que aceita o trabalho de zelador durante o inverno no isolado Hotel Overlook, nas montanhas do Colorado. Acompanhado de sua esposa Wendy (Shelley Duvall) e seu filho Danny (Danny Lloyd), que possui habilidades psíquicas chamadas “iluminação”, Jack planeja usar a temporada para avançar em seu livro. No entanto, à medida que o inverno se intensifica e o hotel fica completamente isolado pela neve, Jack começa a sofrer uma transformação perturbadora, influenciado pelas forças sobrenaturais do hotel, que possui um passado violento. Enquanto Danny tem visões aterrorizantes e encontra o cozinheiro Dick Hallorann (Scatman Crothers), que também possui “a iluminação”, Jack descende gradualmente à loucura, ameaçando a vida de sua própria família.
Contexto Histórico e Impacto Cultural
Lançado em 1980, “O Iluminado” surgiu em um período de transição para o cinema de terror. A década de 1970 havia testemunhado o florescimento de filmes de terror com comentários sociais explícitos, como “A Noite dos Mortos-Vivos” e “O Massacre da Serra Elétrica”, enquanto os anos 80 veriam a ascensão dos slashers formulaicos. Nesse contexto, a adaptação de Kubrick se destacou como uma obra que rejeitava conveniências narrativas em favor de uma experiência psicológica mais profunda.
Inicialmente, o filme recebeu críticas mistas, incluindo duas indicações ao Framboesa de Ouro (prêmio para os piores filmes): Pior Atriz para Shelley Duvall e Pior Diretor para Kubrick. O próprio Stephen King expressou publicamente sua insatisfação com a adaptação, considerando-a fria e sem coração comparada ao seu romance original. No entanto, com o passar dos anos, a percepção mudou drasticamente. Hoje, “O Iluminado” é amplamente reconhecido como uma das maiores realizações do cinema de terror, sendo frequentemente citado em listas dos melhores filmes de todos os tempos, independentemente do gênero.
O impacto cultural do filme é imenso: de suas imagens icônicas como as gêmeas no corredor e o sangue jorrando dos elevadores, à famosa cena do machado na porta com a frase “Here’s Johnny!”, “O Iluminado” permeou o imaginário popular como poucos filmes conseguiram.
Aspectos Técnicos e Estilísticos
A técnica cinematográfica de “O Iluminado” é simplesmente magistral. Kubrick, conhecido por seu perfeccionismo, inovou com o uso da Steadicam, então uma tecnologia recente, para criar os planos fluidos que seguem Danny pedalando seu triciclo pelos corredores do hotel. Esses longos planos-sequência contribuem para a construção de uma atmosfera opressiva e claustrofóbica, apesar das dimensões enormes do cenário.
A composição visual é meticulosamente calculada, com enquadramentos simétricos que evocam uma sensação de ordem artificial perturbadora. A paleta de cores deliberadamente saturada — com destaque para os contrastes entre vermelho, branco e dourado — cria um ambiente visualmente estilizado que aumenta a sensação de irrealidade.
John Alcott, diretor de fotografia frequente colaborador de Kubrick, emprega uma iluminação que, embora abundante (contrariando a escuridão típica dos filmes de terror), produz um efeito igualmente inquietante em sua artificialidade hospitalar. As cenas no salão de baile dourado e no banheiro vermelho são exemplos perfeitos dessa abordagem.
A edição de Ray Lovejoy estabelece um ritmo hipnótico através de cortes abruptos entre cenas aparentemente desconexas e o uso de letreiros que marcam a passagem do tempo (“SEGUNDA-FEIRA”, “TERÇA-FEIRA”), criando uma progressiva sensação de desintegração temporal e mental.
A trilha sonora, predominantemente composta por peças de música erudita contemporânea de compositores como Béla Bartók, György Ligeti e Krzysztof Penderecki, emprega dissonâncias e microtonalidades para criar uma atmosfera de tensão constante e crescente.
Temas e Simbolismos
Para além de sua superfície como história de casa mal-assombrada, “O Iluminado” é um filme denso em camadas interpretativas. Kubrick explora temas como:
- O ciclo da violência familiar: Jack, que menciona ter sido agredido pelo próprio pai, repete o padrão de abuso em sua própria família. A repetição histórica é simbolizada pelo hotel em si, palco de violências que parecem fadadas a se repetir eternamente.
- O colonialismo americano: Referências explícitas ao hotel ser construído sobre um cemitério indígena e a decoração com motivos nativos americanos aludem à violência fundacional dos EUA, tema que Kubrick aborda de forma mais sutil do que o romance de King.
- Isolamento e deterioração mental: O hotel isolado funciona como metáfora perfeita para a mente humana quando privada de contato social, um laboratório onde se observa a gradual dissolução da sanidade.
- Loucura versus percepção sobrenatural: O filme mantém ambiguidade sobre quanto dos eventos é sobrenatural e quanto é produto da mente perturbada de Jack, uma ambiguidade deliberadamente cultivada por Kubrick.
- Labirinto como símbolo: O labirinto de arbustos exterior espelha o labirinto interno do hotel e o labirinto mental de Jack, todos locais onde é fácil se perder e impossível escapar.
A famosa foto final, mostrando Jack em uma festa em 1921, sugere interpretações diversas: Jack como reencarnação de um hóspede anterior? O hotel absorvendo sua alma? Uma metáfora para a natureza cíclica da violência? Kubrick deliberadamente deixa essas questões em aberto.
Por Que Você Deve Assistir
“O Iluminado” merece seu lugar no panteão do cinema de terror por transcender as convenções do gênero. Não é um filme que depende de sustos fáceis ou gore explícito, mas sim de uma crescente sensação de pavor existencial que se constrói metodicamente ao longo de suas duas horas e meia de duração.
A interpretação de Jack Nicholson como Jack Torrance permanece uma das mais impactantes da história do cinema: sua transformação de um homem frustrado mas funcional para uma criatura de puro ódio e malícia é perturbadoramente convincente. Igualmente notável é o desempenho de Shelley Duvall como Wendy, cuja expressão de terror contínuo foi obtida através de métodos controversos de direção (Kubrick notoriamente a submeteu a dezenas de takes para exauri-la emocionalmente).
Para além de seus méritos artísticos, “O Iluminado” é um filme que convida a múltiplas visualizações. Cada nova sessão revela detalhes previamente despercebidos, inconsistências espaciais deliberadas (como janelas em lugares arquitetonicamente impossíveis) e simbolismos sutis que enriquecem a experiência. De fato, o filme gerou toda uma indústria de teorias interpretativas, como documentado no filme “Room 237”.
Kubrick criou uma obra que funciona simultaneamente como entretenimento de gênero e como peça de arte provocativa que desafia o público a questionar a natureza da realidade, da sanidade e da maldade humana. É um filme que permanece tão inquietante e relevante hoje quanto em seu lançamento há mais de quatro décadas.
Se você busca não apenas ser assustado momentaneamente, mas sim profundamente perturbado e estimulado intelectualmente, “O Iluminado” oferece uma experiência cinematográfica incomparável que continua a assombrar gerações de espectadores.
Hereditário (2018)
Sinopse
Dirigido por Ari Aster em sua estreia em longa-metragem, “Hereditário” apresenta a família Graham após a morte da misteriosa matriarca Ellen. Sua filha Annie (Toni Collette), uma artista de miniaturas, o marido Steve (Gabriel Byrne), o filho adolescente Peter (Alex Wolff) e a filha mais nova Charlie (Milly Shapiro) começam a descobrir segredos perturbadores sobre sua ancestralidade enquanto eventos sobrenaturais se intensificam em sua casa. Após uma tragédia devastadora envolvendo Charlie, a família começa a desmoronar sob o peso do luto, culpa e forças ocultas cada vez mais evidentes. Annie busca consolo em um grupo de apoio onde conhece Joan (Ann Dowd), que a introduz ao espiritismo como forma de comunicação com os mortos. No entanto, os rituais que Annie realiza desencadeiam uma série de eventos horripilantes que revelam um destino terrível e inescapável planejado muito antes do nascimento de qualquer um deles.
Contexto Histórico e Impacto Cultural
“Hereditário” estreou no Festival de Sundance em janeiro de 2018 e foi lançado comercialmente em junho do mesmo ano, em um período que críticos e acadêmicos começavam a identificar como uma “renascença” do cinema de terror. Juntamente com filmes como “Corra!” (2017), “Um Lugar Silencioso” (2018) e “A Bruxa” (2015), “Hereditário” faz parte do que foi apelidado de “terror elevado” ou “pós-terror” — obras que, embora firmemente ancoradas no gênero, incorporam elementos do cinema de arte e abordam temas sociopsicológicos complexos.
O filme surgiu em um momento de crescente interesse pela saúde mental, trauma intergeracional e dinâmicas familiares disfuncionais na cultura popular, temas que explora profundamente. Aster mencionou em entrevistas que escreveu o roteiro durante um período particularmente difícil em sua vida pessoal, canalizando suas próprias experiências de luto e ansiedade para a narrativa.
A recepção crítica foi extraordinariamente positiva, com muitos críticos destacando a atuação de Toni Collette, que inexplicavelmente não recebeu indicação ao Oscar apesar de amplo reconhecimento por seu desempenho visceral. Comercialmente, o filme foi um sucesso notável para uma produção independente de terror, arrecadando mais de $80 milhões com um orçamento de apenas $10 milhões.
“Hereditário” impactou significativamente o gênero de terror, estabelecendo Ari Aster como uma voz distintiva no cinema contemporâneo e contribuindo para legitimar ainda mais o gênero como veículo para storytelling sofisticado. Certas cenas — particularmente aquela envolvendo um poste de luz — tornaram-se instantaneamente icônicas no imaginário do terror moderno.
Aspectos Técnicos e Estilísticos
Visualmente, “Hereditário” é meticulosamente construído. O diretor de fotografia Pawel Pogorzelski emprega uma paleta fria, com predominância de tons azulados e esverdeados que contribuem para a sensação de desconforto constante. A iluminação, frequentemente natural ou diegética (originada de fontes visíveis dentro da cena), cria sombras profundas onde o horror pode se esconder.
Os movimentos de câmera são deliberadamente lentos e calculados, com longas tomadas estáticas que forçam o espectador a examinar cuidadosamente o quadro em busca de detalhes perturbadores — uma figura escondida nas sombras, um símbolo discreto na parede. Aster utiliza o enquadramento para isolar personagens, enfatizando sua solidão emocional.
A montagem de Lucian Johnston contribui para o ritmo desconfortável do filme, alternando entre cenas prolongadas de tensão quase insuportável e cortes abruptos e chocantes. A famosa cena que segue o acidente não é mostrada imediatamente, mas revelada através da reação de Peter e depois revisitada em detalhe devastador — uma escolha que amplifica seu impacto emocional.
A trilha sonora de Colin Stetson evita completamente clichês musicais do terror, optando por composições dissonantes, percussão ritualística e texturas sonoras inquietantes que se fundem com o design de som para criar uma experiência auditiva angustiante. A música raramente telegrafá sustos, preferindo manter um estado constante de apreensão.
As miniaturas criadas pela personagem de Annie funcionam como dispositivo narrativo brilhante, permitindo transições visuais impressionantes entre modelos e realidade, além de servirem como metáfora para o tema central de controle versus predestinação.
Temas e Simbolismos
“Hereditário” é extraordinariamente denso em sua exploração temática:
- Trauma geracional: O filme examina como padrões disfuncionais, segredos e traumas são transmitidos entre gerações, tanto literalmente (através da linhagem que o culto busca explorar) quanto metaforicamente (no comportamento autodestrutivo de Annie, que ecoa o de sua mãe).
- Luto e culpa: A família Graham está sobrecarregada por perdas sucessivas e pelo peso esmagador da culpa — especialmente Annie, que questiona suas decisões como mãe, e Peter, consumido pela responsabilidade no acidente. O sobrenatural funciona como manifestação física desse luto patológico.
- Determinismo versus livre-arbítrio: Um dos aspectos mais aterrorizantes do filme é a sugestão de que os personagens nunca tiveram controle sobre seus destinos. As miniaturas de Annie simbolizam essa tensão: ela cria mundos onde controla tudo, enquanto sua própria vida é manipulada por forças além de sua compreensão.
- Desintegração familiar: O horror sobrenatural espelha e acelera a desintegração dos laços familiares já fragilizados dos Graham. A cena do jantar onde tensões reprimidas explodem em confronto verbal é tão perturbadora quanto qualquer manifestação demoníaca.
- Maternidade ambivalente: Annie expressa abertamente sentimentos contraditórios sobre a maternidade, incluindo momentos em que não desejou seus filhos — um tabu social que o filme aborda com franqueza incomum para Hollywood.
O simbolismo visual é igualmente rico: decapitações literais e figurativas representam a separação entre mente e corpo; as miniaturas representam o controle ilusório sobre a vida; a luz funciona paradoxalmente como elemento sinistro, revelando horrores em vez de dissipá-los; formigueiros e colmeias servem como metáforas para o culto que manipula os personagens como peões.
Por Que Você Deve Assistir
“Hereditário” representa um exemplo extraordinário de terror psicológico que não sacrifica a profundidade emocional e temática em favor de sustos fáceis. É um filme que aterroriza não apenas por seus elementos sobrenaturais, mas pela devastadora representação do luto, da culpa e da desintegração familiar.
A atuação de Toni Collette como Annie é simplesmente transcendente, uma performance que oscila entre vulnerabilidade devastadora e fúria aterrorizante com uma autenticidade raramente vista no gênero. O restante do elenco oferece suporte impecável, com destaque para Alex Wolff, cuja representação do trauma de Peter é fisicamente palpável.
A narrativa é meticulosamente estruturada para subverter expectativas. O que inicialmente parece ser uma história sobre uma criança perturbadora (Charlie) transforma-se em algo completamente diferente após um ponto de virada surpreendente. O final, polarizador em sua natureza explícita depois de tanto horror psicológico sutil, funciona como catarse perturbadora para a tensão acumulada ao longo de duas horas.
Mais do que um simples filme de terror, “Hereditário” é uma exploração profunda do luto patológico e da incapacidade humana de aceitar a aleatoriedade da tragédia — buscamos sentido mesmo quando isso significa atribuir nosso sofrimento a forças malignas sobrenaturais. É um filme que permanece com o espectador, provocando reflexões sobre família, destino e os horrores que podem se esconder nas relações mais íntimas.
Se você aprecia cinema que desafia intelectualmente enquanto provoca reações viscerais, “Hereditário” oferece uma experiência incomparável que confirma o potencial do terror como veículo para arte profundamente significativa.
O Babadook (2014)
Sinopse
Dirigido pela cineasta australiana Jennifer Kent em sua estreia em longa-metragem, “O Babadook” narra a história de Amelia Vanek (Essie Davis), uma enfermeira viúva que luta para criar seu filho de seis anos, Samuel (Noah Wiseman), um menino com problemas comportamentais e obsessão por monstros imaginários. A vida já difícil de Amelia torna-se um pesadelo quando Samuel encontra um inquietante livro infantil chamado “Mister Babadook” na estante de casa. Após ler o livro para o filho, estranhos eventos começam a ocorrer: Samuel fica cada vez mais agitado, insistindo que o Babadook é real e está tentando entrar na casa para matá-los, enquanto Amelia começa a ver e ouvir presenças sinistras. À medida que o sono escasseia e o isolamento social aumenta, Amelia começa a questionar sua própria sanidade, enquanto a entidade Babadook parece ganhar força, ameaçando possuí-la e forçá-la a matar seu próprio filho.
Contexto Histórico e Impacto Cultural
“O Babadook” estreou no Festival de Sundance em janeiro de 2014, emergindo em um período em que o cinema de terror independente começava a ganhar maior reconhecimento crítico. O filme surgiu como parte de uma nova onda de terror psicológico focado em metáforas emocionais complexas, afastando-se das convenções mais explícitas do gênero que dominaram as décadas anteriores.
O filme foi produzido na Austrália com um orçamento modesto de aproximadamente 2 milhões de dólares australianos, parcialmente financiado através de uma campanha de crowdfunding. Embora inicialmente não tenha sido um grande sucesso comercial em seu país de origem, “O Babadook” encontrou aclamação internacional, particularmente após William Friedkin (diretor de “O Exorcista”) declarar publicamente que nunca havia visto um filme mais assustador.
Nos anos seguintes ao seu lançamento, o Babadook curiosamente tornou-se um ícone LGBTQ+ depois que a Netflix acidentalmente categorizou o filme como “LGBT” em 2017, levando a memes que reinterpretavam o monstro como um ícone gay. Kent abraçou esta interpretação inesperada, que ilustra como símbolos de terror podem ser ressignificados culturalmente.
O filme é frequentemente citado como exemplo de “terror elevado” que utiliza elementos do gênero para explorar temas psicológicos profundos, neste caso específico, o luto não processado e a maternidade sob condições extremas de estresse.
Aspectos Técnicos e Estilísticos
Visualmente, “O Babadook” emprega uma paleta desaturada que progressivamente escurece ao longo do filme, refletindo tanto o estado mental deteriorante de Amelia quanto a crescente influência da entidade. O diretor de fotografia Radek Ladczuk utiliza iluminação expressionista com sombras pronunciadas que se tornam personagens por si só, criando espaços onde o Babadook pode potencialmente se esconder.
Kent, que tem formação em atuação e estudou na prestigiada escola de cinema AFTRS, demonstra notável controle estilístico. O design de produção transforma a casa simples dos Vanek em um espaço cada vez mais claustrofóbico e opressivo, com tons azulados e cinzentos dominando os interiores. A casa gradualmente se assemelha ao mundo monocromático do livro ilustrado do Babadook.
Os efeitos especiais do filme são notavelmente artesanais, evitando CGI em favor de técnicas de stop-motion, sombras projetadas e efeitos práticos para criar o Babadook, dando à entidade uma qualidade surreal e perturbadoramente tangível. O próprio livro do Babadook, criado pelo ilustrador Alex Juhasz, é uma obra de arte por si só, com ilustrações pop-up macabras inspiradas em filmes expressionistas alemães e nas obras de Georges Méliès.
A edição de Simon Njoo estabelece um ritmo ansioso que imita a privação de sono dos personagens, com cortes abruptos e uma progressão narrativa que se torna cada vez mais fragmentada e onírica. O design de som, por sua vez, é extraordinariamente eficaz, com o característico “ba-BA-ba DOOK-DOOK-DOOK” tornando-se um dos efeitos sonoros mais memoráveis do cinema de terror recente.
Temas e Simbolismos
“O Babadook” é exemplar em sua utilização do terror como veículo para explorar temas psicológicos e emocionais complexos:
- Luto não processado: No centro da narrativa está o luto não resolvido de Amelia pela morte de seu marido, que faleceu em um acidente de carro enquanto a levava para o hospital para dar à luz Samuel. O Babadook materializa este luto reprimido que exige reconhecimento. Como o próprio livro adverte: “Quanto mais você nega, mais forte eu fico”.
- Maternidade ambivalente: O filme aborda corajosamente os aspectos negativos da experiência materna que raramente são discutidos abertamente. Amelia ama seu filho, mas também ressente a vida que perdeu e ocasionalmente fantasia com sua morte — sentimentos representados pela influência do Babadook.
- Isolamento social: A progressiva alienação de Amelia de seus amigos, família e colegas de trabalho ilustra como o luto e as dificuldades parentais podem levar ao isolamento. A casa se torna literalmente um mundo separado da realidade externa.
- Transmissão intergeracional do trauma: Samuel, nascido no dia da morte de seu pai, carrega inconscientemente este trauma. Sua fixação em armas e monstros representa uma tentativa de processar e combater o luto que herdou de sua mãe.
- A impossibilidade de erradicar o sofrimento: A resolução incomum do filme, onde o Babadook é contido no porão mas não destruído, oferece uma perspectiva madura sobre o luto: não é algo que desaparece, mas que pode ser integrado à vida e gerenciado.
Simbolicamente, o Babadook opera em múltiplos níveis: é simultaneamente o luto personificado, a raiva reprimida de Amelia, sua depressão clínica não tratada, e também as partes sombrias da maternidade que a sociedade prefere ignorar. A cor preta dominante associada à entidade contrasta com a ausência conspícua das cores do arco-íris que Samuel inicialmente busca produzir com seus truques de mágica — simbolizando a jornada do filme da negação à integração da escuridão.
Por Que Você Deve Assistir
“O Babadook” oferece uma experiência de terror profundamente original que permanece perturbadora muito depois dos créditos finais, não apenas por seus sustos eficazes, mas pela ressonância emocional de sua história. É um filme que utiliza convenções do gênero para explorar verdades psicológicas raramente abordadas com tanta honestidade.
A performance de Essie Davis como Amelia é extraordinária em sua complexidade, navegando entre exaustão, culpa, amor maternal, raiva e terror com nuances impressionantes. Noah Wiseman oferece uma das melhores performances infantis do cinema de terror recente, apresentando Samuel como genuinamente irritante por momentos, mas também profundamente vulnerável e empático.
Kent demonstra notável controle como diretora estreante, dosando perfeitamente momentos de terror explícito com horror psicológico mais sutil. O clímax do filme, onde Amelia finalmente confronta o Babadook, oferece uma catarse emocional rara no gênero — um momento de verdadeira coragem e autodescoberta em vez da típica derrota temporária do monstro.
Para além de seus méritos como filme de terror, “O Babadook” destaca-se como uma exploração comovente do processo de luto e da jornada para aceitar partes difíceis de nós mesmos. É um filme que assusta precisamente porque toca em medos e emoções profundamente humanos que todos podemos reconhecer.
Se você busca um terror inteligente, emocionalmente ressonante, visualmente distintivo e genuinamente perturbador, “O Babadook” é uma experiência cinematográfica essencial que demonstra o potencial artístico e expressivo do gênero quando abordado com integridade criativa e profundidade psicológica.
Corra! (2017)
Sinopse
Dirigido por Jordan Peele em sua estreia na direção, “Corra!” (Get Out) conta a história de Chris Washington (Daniel Kaluuya), um fotógrafo negro que viaja para conhecer os pais de sua namorada branca, Rose Armitage (Allison Williams), em um final de semana no interior. Inicialmente, Chris interpreta o comportamento desconfortavelmente exagerado da família Armitage como tentativas malsucedidas de demonstrar que estão à vontade com o relacionamento interracial de sua filha. No entanto, à medida que o fim de semana avança, uma série de incidentes perturbadores – incluindo encontros estranhos com empregados negros da propriedade e uma reunião familiar repleta de convidados invasivamente curiosos – faz Chris perceber que algo sinistro está acontecendo. Com a ajuda de seu amigo Rod (Lil Rel Howery), que permanece em contato por telefone, Chris gradualmente descobre uma conspiração terrível que envolve hipnose, transplante de cérebros e uma forma moderna de escravidão, onde consciências de pessoas brancas são implantadas em corpos negros.
Contexto Histórico e Impacto Cultural
“Corra!” foi lançado em fevereiro de 2017, durante um período de crescente conscientização sobre questões raciais nos Estados Unidos. O movimento Black Lives Matter havia ganhado proeminência nacional, e tensões raciais estavam particularmente evidentes após a eleição presidencial de 2016. O filme surgiu em um momento em que os americanos estavam engajados em conversas difíceis sobre privilégio branco, racismo estrutural e a persistência de injustiças raciais na sociedade contemporânea.
Jordan Peele, previamente conhecido por seu trabalho no programa de comédia “Key & Peele”, surpreendeu a indústria cinematográfica com esta incursão no terror que misturava comentário social incisivo com convenções do gênero. Peele citou como influências filmes como “A Noite dos Mortos-Vivos” de George Romero e “O Bebê de Rosemary” de Roman Polanski – obras que utilizam o horror como veículo para crítica social.
O impacto cultural de “Corra!” foi extraordinário. O filme recebeu aclamação crítica quase universal, arrecadando mais de $255 milhões globalmente com um orçamento modesto de apenas $4,5 milhões. Jordan Peele tornou-se o primeiro roteirista negro a ganhar o Oscar de Melhor Roteiro Original, e o filme recebeu indicações em categorias de prestígio como Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Ator.
“Corra!” redefiniu o potencial do cinema de terror como instrumento de comentário social, inspirando uma nova geração de filmes de terror socialmente conscientes. Frases e imagens do filme, como o “Sunken Place” (Lugar Afundado) e a colher mexendo o xícara de chá, tornaram-se referências culturais instantâneas e metáforas para discussões sobre questões raciais na sociedade americana.
Aspectos Técnicos e Estilísticos
Visualmente, “Corra!” é meticulosamente construído para reforçar seus temas e aumentar a tensão. O diretor de fotografia Toby Oliver emprega uma paleta clara e ensolarada para grande parte do filme – subvertendo a tendência de filmes de terror ocorrerem na escuridão e enfatizando que, para pessoas negras, o terror pode existir à plena luz do dia em ambientes aparentemente idílicos.
Peele demonstra notável controle estilístico para um diretor estreante. Os enquadramentos frequentemente isolam Chris em composições que enfatizam seu deslocamento no ambiente predominantemente branco. O uso de primeiríssimos planos nos olhos de Daniel Kaluuya captura a experiência interior de Chris, permitindo que o público testemunhe seu crescente horror e desconfiança.
A montagem de Gregory Plotkin é precisa, alternando ritmos relaxados que estabelecem uma falsa sensação de segurança com sequências de tensão crescente. A famosa cena de hipnose, onde Chris afunda no “Lugar Afundado”, é um tour de force audiovisual que combina edição, efeitos visuais e design de som para criar uma metáfora visual poderosa para a experiência da opressão racial.
A trilha sonora de Michael Abels, em sua primeira composição para cinema, incorpora elementos de música gospel com vocalizações inquietantes na canção “Sikiliza Kwa Wahenga” (swahili para “Escute os Ancestrais”), criando uma atmosfera de ameaça que contradiz a superfície polida do ambiente dos Armitage.
O filme utiliza efetivamente o humor como válvula de escape para a tensão, principalmente através do personagem de Rod, mas sem nunca comprometer o crescente sentido de pavor que permeia a narrativa.
Temas e Simbolismos
“Corra!” é extraordinariamente rico em temas e simbolismos relacionados à experiência negra na América:
- Racismo liberal: O filme disseca brilhantemente uma forma específica de racismo encontrada em ambientes progressistas. Os Armitage e seus amigos não expressam abertamente hostilidade racial – pelo contrário, afirmam admiração pela cultura negra e teriam votado em Obama “pela terceira vez” se pudessem. Este retrato de liberais brancos bem-intencionados cuja “apreciação” da negritude esconde uma forma de consumo e objetificação tocou um nervo cultural precisamente por expor um tipo de racismo raramente abordado no cinema.
- Apropriação cultural levada ao extremo literal: O procedimento central da trama – brancos literalmente habitando corpos negros – funciona como metáfora potente para a longa história de apropriação da cultura, arte, trabalho e corpos negros pela sociedade branca.
- Vigilância racial: Chris constantemente modifica seu comportamento, linguagem e expressões para navegar no ambiente predominantemente branco – uma realidade conhecida por muitas pessoas negras em ambientes majoritariamente brancos. A constante sensação de ser observado e julgado permeia o filme.
- O silenciamento histórico de vozes negras: O “Lugar Afundado”, onde as vítimas são presas dentro de suas próprias mentes – capazes de ver e ouvir mas incapazes de controlar seus corpos – funciona como poderosa metáfora para o silenciamento histórico das vozes negras na sociedade americana.
O filme está repleto de simbolismos visuais: cervos mortos representando a mãe falecida de Chris e a vulnerabilidade negra; o algodão que Chris usa para bloquear a hipnose, invertendo o símbolo da exploração escravagista; xícaras de chá e colheres como instrumentos de controle; e o motivo recorrente dos olhos (câmeras, lágrimas, a cirurgia ocular do avô) destacando a importância de visão e percepção tanto para Chris como fotógrafo quanto para a audiência como observadores da discriminação racial.
Por Que Você Deve Assistir
“Corra!” representa uma das estreias mais impressionantes da história do cinema, estabelecendo instantaneamente Jordan Peele como uma voz essencial no cinema contemporâneo. O filme demonstra o poder do terror como gênero capaz de abordar questões sociais complexas de forma acessível e impactante.
A performance central de Daniel Kaluuya é extraordinária em sua contenção – comunicando volumes através de expressões sutis e olhares que carregam o peso da experiência negra em ambientes hostis disfarçados de acolhedores. O elenco de apoio é igualmente brilhante, com destaque para Betty Gabriel como Georgina, cuja cena do “Não, não, não” se tornou icônica por capturar o horror da consciência aprisionada.
O roteiro de Peele é meticulosamente estruturado, semeando pistas e detalhes que recompensam múltiplas visualizações. A transição do desconforto social cotidiano para horror completo é gradual e convincente, enquanto o clímax oferece uma satisfação catártica raramente encontrada no gênero.
Para além de suas virtudes como filme de terror – e ele funciona extraordinariamente bem como tal, com momentos genuinamente assustadores e uma atmosfera opressiva de paranoia – “Corra!” é uma obra culturalmente significativa que catalisa conversas importantes sobre raça e privilégio na América contemporânea.
Se você busca um filme de terror que combine sustos eficazes com profundidade temática, humor inteligente e comentário social relevante, “Corra!” oferece uma experiência cinematográfica que expande as possibilidades do gênero e permanece perturbadoramente relevante anos após seu lançamento.
Considerações Finais
Os cinco filmes explorados neste artigo – “O Exorcista”, “O Iluminado”, “Hereditário”, “O Babadook” e “Corra!” – representam algumas das mais significativas realizações do cinema de terror ao longo de diferentes épocas. Cada um deles transcende os limites do gênero, utilizando convenções de horror para explorar temas profundamente humanos e socialmente relevantes.
O terror, em suas melhores expressões, funciona como um espelho distorcido que reflete nossas ansiedades coletivas e medos individuais. “O Exorcista” confronta nossa relação com fé e o medo do desconhecido em uma era cada vez mais secular. “O Iluminado” examina a desintegração da família americana e o ciclo intergeracional de violência. “Hereditário” explora o trauma familiar e o peso esmagador do destino e determinismo. “O Babadook” oferece uma metáfora visceral para o luto não processado e os aspectos sombrios da maternidade. “Corra!” utiliza o terror para dissecar as complexidades do racismo contemporâneo em uma sociedade que frequentemente nega sua existência.
O que torna estes filmes verdadeiramente imperdíveis não é apenas sua capacidade de provocar medo, mas a profundidade com que ressoam emocionalmente e intelectualmente. Eles permanecem na memória muito depois que as luzes se acendem, provocando reflexões sobre aspectos fundamentais da experiência humana: família, identidade, perda, poder, preconceito e as sombras que todos carregamos dentro de nós.
Estes filmes também demonstram a versatilidade do terror como forma artística. De suspense psicológico a horror sobrenatural, de metáforas sociais a explorações do trauma pessoal, o gênero oferece ferramentas únicas para cineastas explorarem o que nos aterroriza coletiva e individualmente.
Para apreciadores de cinema que talvez evitem filmes de terror por associá-los apenas a sustos gratuitos ou violência explícita, estas cinco obras oferecem uma porta de entrada para um gênero capaz de profunda sofisticação artística e relevância cultural. Elas nos lembram que confrontar nossos medos através da arte pode ser não apenas uma experiência catártica, mas também profundamente enriquecedora.
Ao final, o verdadeiro poder do cinema de terror de qualidade reside não apenas em nos fazer pular da poltrona momentaneamente, mas em nos acompanhar para casa depois, alterando sutilmente nossa percepção do mundo ao redor e provocando-nos a questionar o que realmente tememos e por quê.
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FAQ – Perguntas Frequentes
1. Estes filmes são adequados para quem não está acostumado com o gênero de terror?
Depende da sensibilidade individual. “O Babadook” e “Corra!” podem ser mais acessíveis para iniciantes no gênero, pois equilibram elementos de terror com drama psicológico e, no caso de “Corra!”, com humor. “O Exorcista”, “O Iluminado” e especialmente “Hereditário” são experiências mais intensas que podem ser desafiadoras para quem não está familiarizado com o gênero. Recomenda-se começar pelos mais acessíveis e gradualmente explorar os mais intensos.
2. Há algum conteúdo extremamente gráfico ou perturbador nestes filmes?
Sim, em diferentes graus. “O Exorcista” contém cenas de automutilação, linguagem obscena e imagens religiosas perturbadoras. “O Iluminado” inclui violência e imagens perturbadoras como sangue jorrando de elevadores. “Hereditário” contém algumas das cenas mais graficamente perturbadoras, incluindo um acidente traumático e rituais macabros. “O Babadook” é menos gráfico visualmente, mas emocionalmente intenso. “Corra!” contém violência moderada e temas raciais perturbadores.
3. Qual é a classificação etária desses filmes?
“O Exorcista”, “O Iluminado” e “Hereditário” são geralmente classificados para maiores de 18 anos. “O Babadook” e “Corra!” costumam receber classificação para 16 anos ou mais, dependendo do país. Contudo, além da classificação etária oficial, é importante considerar a maturidade emocional individual.
4. Existem diferenças significativas entre as versões originais e remasterizadas ou do diretor destes filmes?
Sim. “O Exorcista” tem uma versão do diretor (2000) que inclui a famosa cena da “caminhada de aranha” e outros elementos cortados da versão original. “O Iluminado” tem uma versão americana mais curta e uma europeia mais longa. Os outros filmes não possuem variações significativas em seu lançamento.
5. Estes filmes são baseados em livros ou outras obras?
“O Exorcista” é baseado no romance homônimo de William Peter Blatty. “O Iluminado” adapta o romance de Stephen King, embora com alterações significativas que desagradaram o autor. “Hereditário”, “O Babadook” e “Corra!” são roteiros originais não baseados em obras literárias prévias.
6. Por que estes filmes são considerados superiores aos filmes de terror mainstream contemporâneos?
Estes filmes distinguem-se por priorizar a construção de atmosfera, desenvolvimento de personagens e temas complexos em vez de depender exclusivamente de sustos fáceis e efeitos especiais. Eles utilizam o terror como veículo para explorar questões humanas mais profundas, resultando em experiências cinematográficas que permanecem relevantes muito depois do primeiro visionamento.
7. Existem outros filmes semelhantes que eu deveria considerar se gostei destes?
Se você apreciou estes filmes, considere também: “A Bruxa” (2015), “Midsommar” (2019), “O Homem Invisível” (2020), “Invasão” (2015), “A Órfã” (2009), “Nós” (2019), “Sob a Pele” (2013), “O Hospedeiro” (2006), “Psicose” (1960), e “O Enigma de Outro Mundo” (1982).
8. Como posso apreciar melhor filmes de terror se tenho dificuldade com cenas assustadoras?
Algumas estratégias incluem: assistir durante o dia; pesquisar antecipadamente cenas potencialmente perturbadoras (existem sites dedicados a isso); assistir com amigos; utilizar o controle de volume para reduzir o impacto da trilha sonora; e lembrar-se constantemente que você está vendo uma obra de ficção. Também pode ser útil começar com filmes que equilibram terror com outros gêneros, como “Corra!” que mistura elementos de thriller e comédia.
9. Qual a importância cultural desses filmes para além do entretenimento?
Estes filmes funcionam como importantes documentos culturais que refletem e comentam as ansiedades sociais de suas épocas. “O Exorcista” capturou as tensões religiosas dos anos 70; “O Iluminado” abordou a desintegração da família americana; “Hereditário” explora o peso do trauma familiar na era da saúde mental; “O Babadook” oferece uma metáfora para depressão e luto na sociedade contemporânea; e “Corra!” disseca complexidades raciais na América “pós-racial”. Estudar estes filmes proporciona insights sobre os medos coletivos de diferentes gerações.
10. Existe alguma ordem recomendada para assistir a estes filmes?
Não há uma ordem específica necessária, pois são obras independentes. Contudo, para quem está começando no gênero, pode ser interessante seguir uma progressão: começar com “Corra!” (que equilibra terror com elementos de thriller e comédia), seguir para “O Babadook” (terror psicológico), “O Iluminado” (clássico atmosférico), “O Exorcista” (terror sobrenatural intenso) e finalizar com “Hereditário” (possivelmente o mais perturbador do grupo).

